Desde menina que fui habituada a lidar com a morte.Na aldeia não se "foge" da morte, é algo que nos está certo...o mais certo na vida. Mas ver a minha mãe a caminhar para ela , não me tem sido fácil...o seu sofrimento, a sua vontade de a vencer...tudo tem sido muito difícil.
Agora foi um AVC, provocado pela sua doença que insiste no seu caminho de destruição pelo seu corpo.A nossa impotência....a falta de meios nos hospitais para nos ajudar nestas horas tão más...faz-me sentir revolta. A minha insegurança de saber se estou a fazer o possível e o impossivel por ela...se estou a fazer tudo bem...como se sentirá ela no seu intímo...uma mistura de sentimentos tão fortes que nem consigo pôr em palavras. Apetece-me falar dela...
A minha mãe...de aspecto frágil, cabelo encaracolado e cheia de sonhos...aprendeu a bordar,costura e filha do Sr.António dono da mercearia , taberna e ainda do bailarico da terrinha...uma menina, de aldeia...mas uma menina. Pois as amigas eram muito poucas, visto que andavam na monda e ela era mais "rica". Apaixonou-se esta menina por um homem comprometido (meu pai) ia caindo o Carmo e a Trindade...e as más línguas da aldeia adoraram .
A Bia tinha "errado"...mas penso que não, depois de ter "fugido" até ao alentejo com o meu pai...nasci eu ao fim de nove meses. Uma Célinha redondinha que foi a alegria de todos e fez esquecer o facto de a mãe ter escolhido o homem errado como dizia o meu avô.
Mas até hoje eu sempre senti a minha mãe como uma menina, nada igual à minha avó Beatriz que era sua mãe e uma mulher batalhadora. A sua submissão ao meu pai sempre me fez confusão (talvez a minha rebeldia)...os seus silêncios, as horas que ninguém incomodava porque a mãe tinha dor de cabeça, os seus choros baixinho...mas que nunca obtive resposta.
Lembro da sua atrapalhação quando meus irmãos gémeos nasceram foi um alvoroço, a mãe passou de menina a mulher rápidamente...dois rapazes que eram uns pestinhas, um montão de fraldas, biberons e muita roupa para lavar...as tias, as avós e eu...tudo tinha de ajudar.
Tempos passados...filhos criados, cá estamos hoje...na luta de lhe dar força e coragem para esta caminhada ingrata....- Mãe!!! Não sei que fazer mais e sinto-me impotente!!!Quero chorar contigo e não posso, porque tenho que te dar a força que já não tens e vais ser sempre a minha menina.
http://youtu.be/qAS8Tozk89Q?hd=1
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